Na Cidade Aberta

Ano: 1993
Apresentação

Alberto Pucheu é um poeta autêntico e sua poesia primeira, jovem, surge agora no cenário como promessa real, potência. Adequada, portanto, à proposta básica da série Poesia na UERJ: fazer chegar ao mercado das palavras, das sonoridades, das frases e ditos, intervenções que em algum sentido pareçam capazes de fazer diferença. No espaço supersaturado da midiasfera, indicar o caminho do corte sangrado. Palavra que é imagem tornada corpo. Palavra que é tumulto transformado em pausa para meditação ou fascinação íntima. Palavra que é força. Poesia escrita.

Palavra delicada. Neste exato instante em que a palavra das mulheres toma corpo no cenário da poesia jovem (e nem tão jovem), a linguagem de Pucheu mostra que a delicadeza também existe como atributo dos homens. Pode até ser que, por ora, ela precise ser preservada justamente por eles, à medida que o feminino busca assumir, na cultura, uma face pública, guerreira. No entanto, bem consideradas as coisas, delicadeza no trato da linguagem é qualidade de todo poeta autêntico, independente de gênero.

Donde se conclui: a poesia não-feminina precisa ser necessariamente masculina? Na de Pucheu, a indistinção entre os gêneros se dá como “olhar pensador / abrindo-se para o deus mar / que por sua vez se abre para a cidade / transforma-se em cidade / que é linguagem / linguagem poética / concretizada no papel-areia / alfabeto”. Estou apenas glosando, como forma de homenagem, que é a outra maneira (maneira do poeta) de falar de poesia, além da crítica. Como crítico, assinalo: por trás dessa competente urdida figura poética do mar-cidade-palavra, delineia-se o emblema de uma antiga figura mítica – Ulisses.

Mas por que Alberto Pucheu parece ser um poeta autêntico? Eu diria que fundamentalmente porque mostra ter coragem suficiente para conseguir criar imagens ousadas, fortes, sabendo amarrar seus poemas em torno delas. Por outro lado, e aqui temos um indicador ainda mais seguro de um potencial de poeta, porque consegue trabalhar de múltiplas e originais maneiras algumas metáforas muito simples e muito milenares ou centenárias em matéria de poesia.

Pessoalmente, me agrada esse tipo de lírico que extrai poesia delicada de um núcleo forte e coerente formado por topoi da tradição poética ocidental e universal. Mar, areia, azul, rua, alfabeto – tudo isso pode ser sempre reativado por sangue novo em poesia.

É o sangue do poeta jogado pra galera, pra ela saciar sua fome de carne e de peixe.

Ítalo Moriconi

Resenhas
Matérias
Ensaios